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2025
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O PAÍS DAS JABUTICABAS INDIGESTAS

jabuticaba

O PAÍS DAS JABUTICABAS INDIGESTAS

Reza a lenda que jabuticabas só existem por aqui. Se for verdade, essa “exclusividade”

precisa ser muito bem estudada pelos nutricionistas, pois algumas são muito indigestas.

No final das aulas do ano de 2014, expliquei aos meus alunos que a taxa de desemprego vigente era ilusória. Em minha avaliação, os motivos de uma figura em torno de 5%, próxima do chamado “pleno-emprego”, não permaneceriam por muito mais tempo. Meu modelo de projeção de variáveis macroeconômicas apontava que a taxa iria mais que dobrar, caminhando para 12%. Naquela oportunidade, concedi algumas entrevistas e subscrevi artigos nessa linha. Pouco tempo depois, meu modelo já piorava o número: algo na faixa entre 13% e 14%.
No final de março, agora, o governo publicou estatísticas preocupantes. Vamos a elas: 1) A PMC, do IBGE, mostrou queda de 0,7% (pior do que esperado); 2) O IBC-Br do Banco Central, referente a janeiro de 2017, caiu 0,26% (pior do que o esperado); 3) O déficit do setor público, em fevereiro de 2017, foi de R$ 23,4 bilhões (pior do que o esperado); 4) A relação dívida bruta/PIB está em 70%, caminhando a passos largos para 80% e 5) A taxa de desemprego atingiu 13,2% nos últimos três meses pesquisados.

Da pior recessão da história brasileira em um século, a faceta mais trágica é, sem dúvidas, o desemprego. São 13,5 milhões de brasileiros à procura de trabalho, o que os leva a uma situação (muitas vezes) de penúria, com consequências para toda a sociedade. Independentemente de ser um pai ou uma mãe sem emprego, o fator psicológico acaba afetando a família toda. No limite teremos um problema de saúde pública.
Diante de tantos números ruins, o governo saiu-se com uma ótima notícia: mudará a forma de tratar a taxa de juros do BNDES. Alvissaras! Por quê?
Além de lecionar Economia, também sou professor de Finanças e Valuation. Nessas disciplinas, o tema “estrutura de capital” é absolutamente relevante, pois se discute as vantagens ou desvantagens de uma empresa se endividar (alavancagem).

 

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As fontes de recursos para uma empresa (aqui foca-se numa S.A) são duas: capital próprio (ações) ou de terceiros (dívidas). Estrutura de capital revela, exatamente, a composição entre eles. No limite, uma empresa sem alavancagem possui 100% de acionistas. Porém, na medida em que essa firma vai se alavancando, os benefícios dessa decisão começam a aparecer (ou não). Chamamos de alavancagem favorável quando a decisão de tomar dívida melhora o retorno do acionista. Mas, importante destacar, podem ocorrer casos onde a alavancagem é desfavorável.

Para se endividar, uma empresa recorre ao mercado de crédito. Nele, a oferta de poupança dos agentes econômicos superavitários se dá, por exemplo, através dos bancos comerciais (públicos e privados), bancos de investimentos e bancos de fomento (BNDES). É possível igualmente, pós-globalização, acessar o mercado internacional, o que, aliás, foi feito em profusão por empresas brasileiras nas últimas décadas. Uma observação: aqui, temos uma variável incontrolável, a taxa de câmbio. Em outras palavras, o risco cambial do endividamento externo não pode ser menosprezado (vide 2015) e, muitas empresas, fazem hedge dos seus passivos denominados em dólares.

O problema é que uma parte expressiva do crédito do país (em torno de 50%) é feita pelo BNDES, ou seja, uma instituição pública. E a taxa de juro que o banco cobra pelos seus empréstimos é a TJLP (Taxa de Juro de Longo Prazo). Essa taxa tem um processo de formação diferente das demais taxas de mercado. A TJLP é uma composição entre inflação e risco-país e, nesse momento, encontra-se em 7%, bem abaixo da SELIC.

Olhando a história recente do país, a TJLP vem sendo constantemente menor do que a SELIC e até do que a inflação. Malgrado os alertas de economistas, o assunto foi menosprezado por todos os governos. Tal situação provoca uma enorme distorção no mercado de crédito do país, pois a taxa real é negativa. Ou seja, o que temos é uma taxa de juro subsidiada pelo governo, que, nos últimos anos, favoreceu grandes empresas e não as pequenas e médias, como deveria ser.

A decisão da última sexta-feira tem um lado bastante positivo: o governo vai transformar a TJLP em TLP (taxa de longo prazo), que passará a ser uma taxa “de mercado”, minorando radicalmente essa distorção prejudicial. Haverá uma regra de transição de cinco anos, já que no início a TLP será igual à TJLP. Assim, como a SELIC está em trajetória cadente, teremos um momento de aproximação entre ambas. A partir daí, a TLP refletirá a NTN-B, um título de mercado.

Acabar com essa jabuticaba indigesta é fundamental. A normalização do mercado de crédito é condição sine qua non para a retomada do crescimento, pois criará estímulo aos investimentos produtivos. Com o fim das distorções, a tendência é o reaquecimento do mercado de capitais e o retorno do financiamento via emissão de ações, proporcionando estruturas de capitais mais eficientes. Só dessa forma é que voltaremos a ter empresas financeiramente saudáveis, com benefícios sobre toda a cadeia produtiva.

Alexandre Espirito Santo, Economista da Órama e Prof. IBMEC-RJ

Alexandre Espírito Santo
economista@orama.com.br

Economista pela UERJ Mestre em economia, membro imortal da Academia Nacional de Economia.

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