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O COADJUVANTE PRINCIPAL

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O COADJUVANTE PRINCIPAL

Há poucos dias, um grande amigo me enviou o link de uma notícia que mostrava uma entrevista com um famoso gestor de fundos americanos

, onde ele sugeria que o índice de ações Dow Jones, da bolsa de NY, irá praticamente dobrar até 2030, passando dos atuais 21 mil para 40 mil pontos. Meu amigo estava curioso para ouvir minha opinião, já que ele conhece meu ponto de vista de que se aproxima uma realização mais expressiva nos mercados bursáteis lá de fora.

Exatamente! Já faz uns seis meses que advogo a tese de que o mercado acionário americano está muito acima dos seus valuations. Nessas horas, tento me aconselhar com a história do mercado para captar os sinais que ele emite, o que ajuda vislumbrar sua trajetória de médio prazo.

Além de trabalhar no mercado financeiro há três décadas, leciono a disciplina de valuation há 18 anos. Nela, procuro ensinar ao aluno as metodologias para identificar o preço justo da ação de uma empresa, baseado nos seus fundamentos. As métricas mais difundidas para esse tipo de análise são: Fluxo de caixa descontado e múltiplos. Como gosto de dizer aos meus alunos, se fosse compará-las com a cerimônia do Oscar, a análise por fluxos de caixa seria a categoria principal (leading actor) e os múltiplos estariam para prêmios secundários, como ator e atriz coadjuvante, mas que também recebem a estatueta.

Nas últimas semanas, alguns daqueles sinais aos quais me referi acima estão mais nítidos. Muitos ativos vêm apresentando volatilidades absurdamente elevadas, enquanto outros apresentam variações de preços extremamente baixas. Esse contraste não é normal! Se repararmos, inclusive, algumas ações viveram, recentemente, episódios de flash crash, quando as cotações desabam muito fortemente, num curtíssimo lapso de tempo, e depois se recuperam. Isso ocorreu, por exemplo, com as ações da Amazon, Ethereum e até com moedas eletrônicas, como a Bitcoin. Mas não é só isso.

 

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Outros sinais emergem dos próprios valuations. Se selecionarmos um conjunto de empresas do setor de tecnologia, a chamada FAANG (ações da Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google), muitas estão com P/Ls acima de 20 anos. Netflix, por exemplo, tem esse múltiplo beirando 200 anos. Só para ajudar o leitor não familiarizado, o índice P/L indica quanto tempo o investidor que compra a ação da empresa levará para ter de volta o valor desembolsado em termos de lucro contábil anual. Convenhamos que tais figuras não indicam nenhuma pechincha. Ao contrário!

Para adicionar mais apreensão, faz poucos dias li matéria no Financial Times que reporta o comportamento “atípico” da curva de juros dos treasuries bonds. A matéria do jornal inglês mostra que a diferença entre os rendimentos dos títulos de 30 anos e os de 2 anos caiu para o menor patamar em uma década, para 1,37%. A reportagem ressalta que em dezembro do ano passado essa diferença encontrava-se pouco acima de 2%. Em outras palavras, a curva de juros, tradicionalmente “empinada”, está ficando “flat”. Tal comportamento espelha a postura do FED de elevação de sua taxa de juro (a da política monetária). Mas por que essa tendência seria perigosa?

Se analisarmos crises recentes, o comportamento da curva de juros foi muito semelhante a esse de agora, o que pode ensejar um retorno ao pessimismo da economia no longo prazo. Se isso for verdade, os lucros das empresas vão cair mais fortemente e os P/Ls, já elevados, ficarão insustentáveis. Assim, sugiro cada vez mais atenção ao mercado de ações lá de fora.

Por experiência, já vi mercados virando de uma hora para outra. Daí reforçar meu ponto de vista, de que é importante cautela redobrada. Desconfio que, desta vez, o coadjuvante vai ser um ótimo leading.

 

Alexandre Espirito Santo, Economista da Órama e prof. IBMEC-RJ

Alexandre Espírito Santo
economista@orama.com.br

Economista pela UERJ Mestre em economia, membro imortal da Academia Nacional de Economia.

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