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SINUCA CAMBIAL

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SINUCA CAMBIAL

Impossível desassociar economia de política. Especialmente nos dias presentes, as decisões que são tomadas pelo governo, que é o ente que manuseia a política econômica de acordo com suas convicções e projetos, irão afetar fortemente os rumos do crescimento e do emprego. Isso ocorre em qualquer país, por certo. Todavia, em economias como a nossa, a sensibilidade das decisões governamentais são normalmente maiores do que em outras, uma vez que o Estado é muito grande comparativamente ao PIB.

No Brasil, a cada quatro anos, temos eleições presidenciais. Desde a campanha eleitoral de 2001, que levou o ex-presidente Lula a sua primeira vitória, que os períodos pré-campanha se caracterizam por uma pressão significativa sobre a taxa de câmbio e a taxa de juros. E não está sendo diferente agora.

Essas ondas de desvalorizações da nossa moeda têm um forte impacto sobre a economia, sobretudo nas expectativas de inflação. E, como nosso banco central possui metas para o IPCA, deve atuar em caso de a meta ser colocada em risco. Essa relação de causa-efeito, câmbio-inflação, pode acabar por afetar a política monetária, pressionando as taxas de juros futuras, com reais efeitos danosos sobre a economia como um todo.

Quando um país trabalha em sistema de câmbio flutuante, como é o nosso caso, a taxa acaba por refletir, além das condições de comércio de bens e serviços (o chamado saldo em transações correntes do balanço de pagamentos), os fluxos de capitais (produtivos e especulativos).

Desde de que a globalização financeira se espraiou mundo afora, no início da década de 1990, os capitais internacionais procuram boas oportunidade de rendimentos, vis a vis ao risco que correm para obterem tais ganhos. Nesse sentido, os países emergentes acabaram se tornando opções interessantes, uma vez que possuem população elevada, com potencial de consumo expressivo, e as empresas, por conseguinte, poderiam alavancar seus resultados, o que valorizariam suas ações em bolsa; um ciclo virtuoso.

A partir desse diagnóstico, os capitais fluem para essas economias, que passam a fazer parte do portfólio global de investimentos dos grandes fundos. Em outras palavras, eles abrem mão de investimentos com baixo risco e baixa rentabilidade (treasuries americanos, por exemplo) em busca de ganhos maiores nessas economias. Tal estratégia tem o nome de carry trade e predominou nessa era de juros baixos, que agora parece entrar em ocaso.

O problema é que nos países com regime presidencialista, onde tradicionalmente há mais incertezas políticas, uma situação de mudança radical de poder implica em efetivos riscos de alterações de rumos, o que pode propiciar dúvidas em investidores mais refratários a risco, levando-os a sacarem seus dólares para voltarem para o “porto seguro”. Para que isso não ocorresse seriam necessárias doses elevadas de segurança jurídica e um banco central independente, para dar maior confiança aos estrangeiros.

O ponto crucial é que, em situações de maior incerteza, o diferencial entre o juro doméstico e o internacional acaba se tornando fator decisivo. Sob essa ótica, a diferença de taxas caiu, nos últimos 18 meses, de 13% para 4%, em função da queda da SELIC e da alta do juro promovido pelo FED. Assim sendo, à medida que as eleições brasileiras se aproximam, trazendo dúvidas se as reformas necessárias para reverter o quadro fiscal irão adiante, o investidor externo considera abdicar desse ganho atual, substancialmente menor. Com isso, a pressão na taxa de câmbio se acentua, porque muitos estão desfazendo suas operações carry trade. Para piorar, a moeda americana está mais demandada no mundo todo, havendo, portanto, uma pressão natural sobre moedas emergentes, como é o caso, além do real, do peso argentino e da lira turca.

A questão é como o banco central brasileiro vai reagir. Na Argentina e na Turquia, os BCs subiram suas taxas de juros para estimular os capitais especulativos a permanecerem “dentro”. Nesse caso, contudo, existe uma espécie de “dominância cambial”, uma vez que a política monetária fica refém da taxa de câmbio. Sobe-se a taxa de juro para aumentar a atratividade do carry trade.

Aqui no Brasil, contudo, o BC tem dado indicações, em ações e comunicados, que não pretende optar por essa estratégia. Dessa forma, tem procurado se utilizar dos swaps cambiais e de leilões de linha, uma espécie de empréstimo de dólares das reservas, com compromisso de recompra. Avalio tais estratégias como adequadas, preliminarmente, para dar liquidez ao mercado. Porém tal procedimento não poderá se perpetuar. Assim, a eleição precisará se tornar decisiva, caso contrário será difícil conter a saída de dólares do país.

Para finalizar, o país está dividido e os ânimos estão exaltados. Fica difícil ver um presidente eleito conseguir levar a bom termo as reformas, sem que o Congresso esteja afinado com as mesmas. Nesse sentido, as eleições para senadores e deputados ganham tanta relevância quanto à presidencial, pois se o presidente quiser reformar, e os congressistas não, estaremos diante de uma “sinuca cambial”.

Alexandre Espirito Santo, Economista da Órama e Prof. IBMEC-RJ

Alexandre Espírito Santo
economista@orama.com.br

Economista pela UERJ Mestre em economia, membro imortal da Academia Nacional de Economia.

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