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Fruta Podre

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Fruta Podre

As eleições se aproximam. Estamos naquela hora em que, a cada quatro anos, escolhemos os que nos representarão e darão rumo ao nosso futuro. Numa democracia é assim que funciona , para o bem ou para o mal.

Venho enfatizando que precisamos escolher muito bem os nossos representantes no Congresso. De pouco adiantará o novo presidente ter a força das urnas, se a Câmara e o Senado estiverem fragmentados.

Aqui no Brasil há um (questionável) sentimento de que o presidente consegue o que quiser nos seis primeiros meses de mandato. Alguns dizem, para ilustrar tal “evidência”, que o ex-presidente Collor, por exemplo, ao ser eleito, conseguiu congelar a poupança das famílias. Fato! Todavia, em minha visão, essa percepção nada mais é do que um argumento falacioso e que não sobrevive aos dias presentes, especialmente num ambiente político tenso como o atual. Se eu estiver certo, como aprovaremos as reformas necessárias, uma vez que se faz necessário quórum qualificado, de 3/5? Um baita desafio…

Fiz essa introdução, pois tenho lido com muita tristeza o que vem ocorrendo na Venezuela e até na Argentina, com a recente onda de ataque especulativo ao peso. Alguns colegas economistas, inclusive, temem que caminhemos para o que chamam de venezuelização ou efeito tango. Não creio que chegamos a esse ponto, mas é certo que a inflação é problema nesses países, e o sofrimento da população enorme. Por isso não é bom tergiversar sobre alguns temas, como esse. Eu, por exemplo, vivi numa época em que a carestia chegou a 5.000%.

Como professor de economia, gosto de usar metáforas. Para aqueles muito jovens, de 17/18 anos, explicar fenômenos da ciência econômica é tarefa extremamente desafiadora, sobretudo se usarmos aquela linguagem um tanto pernóstica: o “economês”. Com ela, tudo fica mais difícil de compreender.

Na primeira semana de aulas, para a turma de primeiro período de macroeconomia, mostrei (superficialmente) as diferenças entre os pensamentos “liberal” e “keynesiano”, que serão melhores distinguidos, incluindo suas nuances, em períodos subsequentes.

Independentemente do modo de se pensar, é mais ou menos óbvio o conceito de agente econômico. Nós, como famílias, as empresas e os governos somos exemplos. Sob o aspecto contábil, um agente econômico possui um orçamento (encontro das receitas e despesas) que pode apresentar três possíveis resultados: zero (equilibrado), maior que zero (superávit) e menor que zero (deficitário).

Solicitei aos alunos que se olhassem como um agente econômico (família) e analisassem a situação sob a ótica de um agente deficitário. A pergunta que fiz foi “como cobrirão aquele déficit?”. Nesse momento, pedi que alguns fossem até a janela da sala de aula e me mostrassem uma árvore de dinheiro, o que causou estranheza em todos. Como eles ainda não me conhecem, ficaram inibidos, mas concordaram que não existe o tal “pé de dinheiro”. Logo, “se não tem como cobrir o buraco com a árvore de dinheiro, o que nos restaria?”, perguntei. A resposta, uníssona, foi: dívida!

A resposta é essa mesmo: dívida! Vamos pegar um empréstimo com outro agente econômico superavitário, que pode ser um amigo, um parente ou um agente do mercado financeiro, um banco por exemplo. Nesse último caso, certamente, pagando juros.

Admitindo que o governo seja um agente deficitário, como é o caso do governo brasileiro, o que fazer? Contrair dívida (pública) pagando juros, certo? Sim! Mas aqui entra a grande diferença do governo para os demais agentes: o governo tem uma “árvore de dinheiro”: o banco central. Se a autoridade monetária for “monetizar” o déficit público teremos um excesso de “fruta” e muitas delas “apodrecerão”. Enxergo essa metáfora como adequada para explicar a inflação para um jovem de 17/18 anos. Imprimir moeda, sem lastro em bens e serviços, torná-la-á desvalorizada, mais e mais.

O problema é que muitos economistas possuem a crença de que o governo não pode ser comparado a uma família ou uma empresa, pois ele tem “compromissos sociais”. Discordo dessa visão, uma vez que temos livre arbítrio sobre nossas vidas e, mais ainda, a inflação penaliza sobretudo os mais pobres, o que representa um contrassenso. Mas aqui existe uma discussão filosófica, que fica para um outro artigo.

Para finalizar, o déficit público brasileiro é extremamente alto, o que implica em elevada dívida. Sem reformas e corte de gastos, só nos restaria elevar impostos, já que a economia pouco cresce. No limite, sem que a questão fiscal seja atacada, a inflação irá retornar a médio prazo para resolver os desajustes, pois acabaremos monetizando o déficit. Não podemos correr riscos de perder conquistas importantes, e o controle da inflação é uma das mais significativas.

Alexandre Espirito Santo, Economista da Órama e Prof. IBMEC-RJ

Alexandre Espírito Santo
economista@orama.com.br

Economista pela UERJ Mestre em economia, membro imortal da Academia Nacional de Economia.

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