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FUGIR OU ENCARAR?

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FUGIR OU ENCARAR?

Já faz tempo que considero Fernando Gabeira a voz mais lúcida entre os articulistas brasileiros. Nos tempos presentes, não é qualquer um que escreve com tamanha independência e bom senso, algo difícil de se encontrar na imprensa. Gabeira tem origem na esquerda e não podemos chamá-lo de reacionário, como muitos que pensam de forma mais ao centro estão sendo rotulados.
Recentemente, Gabeira escreveu um texto extraordinário sobre o país e a reforma da previdência, em O Globo. De forma resumida, nele o ex-deputado federal conclama a sociedade a se unir. Segundo ele, a mudança na previdência é essencial para que economia volte a gerar riqueza e empregos. Ele está certíssimo!

Os que acompanham meus textos e entrevistas devem notar que o que mais faço nos últimos dois anos é defender uma mudança contundente no nosso sistema de aposentadorias. Como sempre ressalto, em menos de duas décadas o país gastará todo seu orçamento para pagar benefícios e não sobrará dinheiro para nada de essencial (saúde e educação) e infraestrutura. Em outras palavras, tornar-nos-emos um país inviável em, no máximo, vinte anos. Nossos filhos e netos terão tremenda dificuldade em viver aqui.

Vou, mais uma vez, reforçar alguns pontos essenciais, olhando sobre a ótica demográfica, e não econômica: 1) A população brasileira está no topo do ranking das que mais envelhece; 2) Na década de 2050, 1/3 dos brasileiros terá mais de 60 anos; 3) A expectativa de sobrevida, após 60 anos, é muito maior do que os 76 anos de expectativa de vida ao se nascer (um homem que chega aos 65 anos hoje em dia, em média, vive até 82, e a mulher que chega até os 60 anos, em média, vive até 84 anos) e 4) O número de filhos médio por mulher caiu mais de 70% em cinco décadas.

O que quero dizer, no parágrafo acima, é que a previdência tem a ver com a dinâmica populacional e não somente econômica, como muitos querem mostrar. É inexorável o fim do bônus demográfico e isso traz consequências nefastas sobre o sistema atual de repartição, onde os mais novos são descontados em seus salários para pagamentos dos benefícios dos idosos. A conta, que já não fecha hoje, torna-se não financiável em mais algum tempo.

Em vários países do mundo a previdência tem sido um problema; não é privilégio nosso. Nesse sentido, reformas foram realizadas e, segundo dados da OCDE, os brasileiros se aposentam, em média, sete anos mais cedo do que aposentados de outros países importantes. Temos que reavaliar nossa idade mínima.

Tenho alertado diuturnamente para esse “Fla x Flu” que acometeu o país desde a eleição de 2014 e que não vai nos levar a bom lugar. Nesse sentido, enaltecer as posições de Gabeira me parece de bom tom, em tempos de ideologias exacerbadas e baixo pragmatismo. De nada adiantará nos encastelarmos contra as reformas, pois não haverá economia que gere empregos e renda sem as mesmas.

Para terminar, evidente que existem muitas distorções e privilégios que devem ser questionados em relação à previdência. A proposta de reforma enviada pelo governo ao Congresso é um esboço, o ideal em termos econômicos, mas sem dúvida pode/deve ser aperfeiçoada. Todavia, como bem disse Gabeira, não desfigurada. Minha visão é de que será necessária uma economia mínima de R$ 700-800 bilhões em uma década, contra a proposta de R$ 1,1 trilhão de economia sugerida pela equipe de Paulo Guedes. Caso contrário, teremos um arremedo de reforma, e os investidores e empresários permanecerão com medo de investir aqui; de nada adiantará.

Alexandre Espirito Santo, Economista da Órama e prof. IBMEC-RJ

Alexandre Espírito Santo
economista@orama.com.br

Economista pela UERJ Mestre em economia, membro imortal da Academia Nacional de Economia.

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