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IDEOLOGIA, NÃO QUERO UMA PARA VIVER

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IDEOLOGIA, NÃO QUERO UMA PARA VIVER

Na década de 1980, Cazuza cantava: “ideologia, eu quero uma para viver”. Nos últimos anos, infelizmente, a política vem conduzindo as ideologias e não o contrário, o que faria mais sentido. Esse texto não contém viés político ou ideológico. Pretende, apenas, fazer uma análise prospectiva para 2019, sob o aspecto econômico.

O mês de dezembro foi de fortes emoções nos mercados financeiros globais. As oscilações dos índices acionários americanos foram de amplitudes descomunais, inclusive as intradiárias. Para piorar, as cotações do barril de petróleo acompanharam a volatilidade das ações, num ziguezague sem precedentes. Em outras palavras, não foi um fim de ano para cardíacos, pois, em geral, os investidores estão acostumados com o famoso rali de Natal, que, dessa vez, não ocorreu.

Os motivos para essa situação anormal perpassam desde o shutdown do governo americano até o estresse trazido pelo presidente Donald Trump, que sugeriu uma eventual demissão do comandante do FED, Jerome “Jay” Powell, algo absolutamente impensável e improvável por lá. Segundo Trump, o presidente do FED (sua indicação, diga-se de passagem) é o único problema da economia americana nos tempos presentes, em virtude das elevações de juros que o BC vem promovendo, com projeções de mais aperto para 2019.

A pergunta que penso ser relevante no momento é: a queda abrupta das ações em dezembro, arrastando os índices americanos em 2018 para um território negativo não observado há uma década, é um prenúncio de nova crise, a antessala de uma recessão, ou somente o ajuste de valuations excessivamente caros?

No final de 2017, escrevi um texto para o blog da Órama (leia aqui), onde questionava o “euforismo” (mistura de euforia com otimismo) das cotações das ações americanas. Se olhássemos os múltiplos vigentes, para lá de exagerados (comparativamente aos históricos), era mais ou menos previsível apostar que eram insustentáveis no médio prazo. Para piorar, ao longo de 2018 tivemos diversos ruídos envolvendo EUA e China, como a questão da guerra comercial e o imbróglio da Hauwei, que acabaram reverberando sobre as expectativas e, de maneira mais contundente, sobre o preço do petróleo. Para piorar, na Europa tivemos problemas diversos, notadamente com a Itália e o Brexit.

O ponto mais preocupante, contudo, foi o recente comportamento da curva de juro dos treasuries. Se olharmos para seu “perfil”, a curva está praticamente horizontal entre o curto (dois anos) e o longo (dez anos) prazos. Essa situação sugere que os agentes econômicos estão considerando uma recessão (ou forte desaquecimento) para breve na economia estadunidense.

A interpretação de muitos analistas de mercado, com a qual não comungo, é de que as quedas das bolsas, associadas ao comportamento flattening dos yields dos treasuries, sugere uma possível crise, com implicações adversas sobre os ativos de mais risco.

De minha parte, não considero (pelo menos ainda) um cavalo de pau na economia americana. As estatísticas do mercado de trabalho apontam para números relativamente saudáveis e inflação sob controle, na faixa de 2%. Minha percepção é de que teremos uma pequena redução no crescimento por lá, bem como da economia chinesa, que pode crescer em torno de 6,5% (nenhuma tragédia). Ou seja, minha aposta para 2019, em relação à economia global, é de uma pequena correção no crescimento, o que não referendaria a magnitude do estresse atual. Para corroborar minha tese, o próprio “Jay” ainda sugere mais dois aumentos de juros em 2019, o que não condiz com um ambiente recessivo (pelo contrário). Ele estará errado?

Se meu diagnóstico em relação à cena externa estiver correto, ou seja, baixa probabilidade de crise aguda, o que esperar do ano de 2019 para o Brasil, que terá um novo governo?

Após quase uma década, aposentei o pessimismo que me acompanhava. Tudo bem que apresentamos números muito ruins na economia brasileira, sendo os principais: i) dívida/PIB de quase 80% e crescente; ii) déficit primário de quase 2%; iii) pagamos em torno de 6% do PIB em juros pela dívida doméstica; iv) déficit de mais de 4% do PIB na previdência (INSS e servidores) e crescente e v) concessão de 5% do PIB em subsídios. Então, donde brotam as raízes para o meu recente otimismo?

É evidente que não é simples sairmos do torpor da última década para uma exuberância invejável, de uma hora para outra. Quem trabalha com cenários, contudo, precisa atribuir probabilidades aos possíveis eventos. Nesse sentido, creio que, se o cenário lá de fora mais favorável prevalecer, teremos uma boa chance de retomar um crescimento mais robusto do PIB, com queda no desemprego. Por quê?

Como venho argumentando em minhas recentes entrevistas, todas as grandes crises brasileiras passavam por dificuldades no nosso balanço de pagamentos. Neste momento, no entanto, gozamos de uma situação bastante confortável nessa área. Ademais, o país apresenta uma enorme capacidade ociosa, com um parque industrial relativamente moderno. Em outras palavras, se as expectativas econômicas melhorarem, nossas empresas não precisarão construir novas fábricas, mas tão somente contratar desempregados para fazer as que já existem funcionarem. Se estiver certo, haverá uma reversão de um círculo vicioso, de baixo crescimento e elevado desemprego, para um ciclo virtuoso, de aumento de emprego e renda, sem pressões inflacionárias. Se assim for, como a taxa de juro está em patamar muito baixo para nosso padrão histórico, o BC não precisará atuar de forma preventiva, mantendo a SELIC nesses níveis, e a taxa de desemprego poderá recuar para uma figura entre 8%-9%, dos atuais 11,5%. Tal situação poderia levar o PIB a um crescimento em torno de 3% em 2019.

Para essa reversão se concretizar, contudo, é condição sine qua non que a reforma da previdência seja aprovada num horizonte de tempo não muito distante. Se o governo Bolsonaro, que ora assume, conseguir convencer a sociedade/Congresso que a Previdência do jeito que está é insustentável, a bomba de retardo será desarmada. Lembremo-nos que já há algum consenso de que a reforma da previdência é imperativa. Prova disso é que já houve tramitação nas comissões especiais do Congresso, ainda no governo Temer. Se eu estiver correto em minha análise, sem viés ideológico, analisando de forma pragmática, 2019 pode ser muito auspicioso. Que assim seja!

Alexandre Espirito Santo, Economista da Órama e Prof. IBMEC-RJ

Alexandre Espírito Santo
economista@orama.com.br

Economista pela UERJ Mestre em economia, membro imortal da Academia Nacional de Economia.

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