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POLIANNA OU ANNA? LET IT GO!

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POLIANNA OU ANNA? LET IT GO!

Existe um ditado popular, muito antigo, que diz que até um relógio parado mostra a hora certa duas vezes ao dia. Em outras palavras, mesmo que você tenha uma opinião errada sobre algo ela pode, eventualmente, estar certa, sob algum aspecto.

Nos últimos dias, em virtude dos diversos ruídos entre o governo e o Congresso, a reforma da previdência ganhou ainda mais destaque na mídia. Eu, talvez movido por um espírito de Polianna, acreditava que havia um consenso na sociedade de que essa reforma era imperativa, algo pacificado. Porém, depois do que assisti semana passada, minha crença mudou: permanece o dissenso, só que com ingredientes de outra fábula, Frozen, já que muitos congelaram no tempo.

Pessoas dos mais variados matizes ideológicos, inclusive economistas, advogam a tese de que a previdência é uma questão contábil. Admitem que há um problema, mas que esse seria corrigido se o país voltasse a crescer. Dizem que o déficit se originou porque o PIB congelou. Aqui, temos o caso do relógio mostrando a hora certa, mesmo estando com defeito.

Estudei profundamente esse tema nos últimos dois anos. Pesquisei as contas, procurei ler artigos sobre o assunto, consultei o site do IBGE para analisar a mudança da estrutura demográfica brasileira e questionei especialistas. Estudei as propostas de vários economistas, especialmente aquela de Fraga/Tafner. Minha conclusão é de que o problema não é o PIB pífio da última década, que, “congelado”, ampliou o problema. Sim, isso influenciou, por óbvio. Todavia, a questão é mais profunda e perene. O problema central é que está ocorrendo uma mudança na pirâmide populacional do país, uma mudança etária irreversível na nossa sociedade.

Vou citar aqui alguns “números” para os mais céticos. 1) Este ano o país perde o bônus demográfico, cinco anos antes da previsão feita pelo IBGE há uma década. O bônus demográfico é, de forma simples, quando a população entre 15 e 64 anos é maior do que as crianças e idosos dependentes; 2) A sobrevida do brasileiro aumentou (não se pode confundir a expectativa de vida do brasileiro, que ao nascer é 76 anos). Atualmente, a mulher que chega aos 60 anos vai viver até 84, e o homem que chega aos 65 vai viver até os 82. Tais números (positivos, estamos vivendo mais) são, em média, seis anos a mais do que no início dos anos 1990; 3) Daqui a 15-20 anos, 1/3 dos brasileiros terá mais de 60 anos; 4) A taxa de fecundidade passou de 6,5 filhos, na década de 1960, para abaixo de 2 filhos agora e 5) Uma parte enorme das despesas sociais do governo (previdência, folha de salários, seguro-desemprego e assistência social) representam em torno de 80% do PIB, enquanto saúde e educação somam 11%. O que sobra? Bom, daqui a uma década não sobrará nada mesmo, se as coisas permanecerem como estão.

O fato determinante é que a pirâmide etária brasileira, que na década de 1980 era um “triângulo”, está mudando. Daqui a 25 anos permanecerá um triângulo, porém invertido. Assim sendo, se juntarmos todas essas informações, a previdência será insustentável do jeito que está. Isso só não ocorreria se o país crescesse a taxas chinesas pelos próximos 10-15 anos, o que, convenhamos, é impraticável.

Com franqueza, essa discussão já está cansando, pois ela está inserida no tal Fla x Flu que estamos vivendo desde 2014. É triste ter que assistir a tema tão relevante para a sociedade sendo discutido como uma partida de futebol, onde não há racionalidade. Nesse sentido, o argumento usado pelo ministro Paulo Guedes é bastante adequado: o futuro da nossa juventude está em jogo.

Para terminar, tenho medo de que essa nova teoria monetária (MMT), que está sendo defendida por professores mais à esquerda nos EUA, ganhe força por aqui e seja um vetor que reforce a baixa necessidade de esforço para a reforma. Por essa teoria, inflação e déficit são irrelevantes, já que o BC pode emitir moeda indefinidamente para financiar o governo.

Sem uma nova previdência, aí mesmo que o país não crescerá. Reforço, aqui, Paulo Guedes: que herança deixaremos para as gerações futuras? Precisamos da Reforma… LET IT GO!

Alexandre Espirito Santo, economista da Órama e Prof. IBMEC-RJ

Alexandre Espírito Santo
economista@orama.com.br

Economista pela UERJ Mestre em economia, membro imortal da Academia Nacional de Economia.

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